Review | Vale a pena pagar mais caro pelo 360 Reality Audio?

Se você acompanha o CT e curte novidades no ramo do áudio e da música em geral, já deve estar sabendo do novo formato recém-lançado pela Sony para os amantes do boa e velha “sonzeira”: o 360 Reality Audio, que veio para mudar a maneira como ouvimos música e é a aposta da japonesa para chacoalhar o mercado fonográfico daqui por diante.

O objetivo da nova tecnologia é tornar o som tão realista e imersivo a ponto de transcender o usuário para o local onde a música foi gravada. Seja uma sala de concerto, um estúdio de gravação ou um palco ao vivo, o som soa diferente, circulando pela cabeça do ouvinte como se houvesse uma série de canais e falantes posicionados em diferentes alturas e distâncias em uma esfera.

A Sony teve de transformar uma gravação digital em uma experiência que chega próxima ao conceito do áudio binaural, ou seja, traz aquela noção espacial ao ouvinte. A mágica pode acontecer tanto durante a captação como após a gravação — tanto é que músicas mais antigas são remasterizadas digitalmente para o novo formato, que pasme, não é enorme e funciona nas plataformas de streaming. Com isso, a Sony procura popularizar o áudio 360 enquanto conquista uma parcela de ouvintes exigentes e, digamos, mais próximos da audiofilia.


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O que acontece, na real?

No 360 Reality Audio, sons individuais da gravação são “destacados” do conjunto e posicionados virtualmente em um palco sonoro para dar a impressão de campo sonoro mais aberto, mesmo em fones de ouvido totalmente fechados. Isso traduz exatamente a intenção dos artistas, e para quem ouve, é como se a música ficasse circulando ao seu redor.

Como disse André Mendes ao Canaltech, em entrevista recente: “A Sony pretende deixar de ser apenas uma fabricante de fones para entregar também uma experiência de áudio muito maior [para o usuário] do que ele teria simplesmente usando um fone de ouvido”. E segundo a Sony, sons individuais, como vocais, coro, piano, guitarra, baixo, e até mesmo os sons ao vivo da plateia, podem ser colocados em um campo esférico de 360°, concedendo aos artistas e criadores uma nova forma de expressar a sua criatividade. Os ouvintes podem ser imersos em um campo sonoro exatamente como era a intenção dos artistas e criadores.

Os engenheiros da Sony tiveram o trabalho de “separar” trilha a trilha das gravações já existentes para disponibilizá-las no formato 360. Ou, em casos mais recentes, mudaram a maneira de captação, edição, mixagem e masterização, gerando discos e músicas novas já dentro do novo conceito de áudio — que, aliás, já deixou de ser conceito e está rolando em grandes serviços de streaming, como TIDAL, Deezer e nuts.net aqui no Brasil. E segundo André, Spotify e Amazon estão na mira para “em breve” incluírem a novidade. Não seria contradicente afirmar que Apple Music e Google Play Music também estivessem em contato com a Sony para popularizar ainda mais o novo formato. Quem sabe agora, em 2020? Especulações, apenas….

E aí, será que é bom mesmo? (Imagem: Divulgação/Sony)

Apesar de, na prática, funcionar com qualquer fone de ouvido hi-res ou de alta qualidade (como a empresa indica na hotpage do 360 Reality Audio), a Sony recomenda seus últimos modelos (quatro deles disponíveis no Brasil) para que o usuário consiga extrair o máximo do que o áudio 360 consegue entregar. O Canaltech já testou todos esses modelos e você confere o review de cada um deles:

  • WH-1000XM3
  • WF-1000XM3
  • WH-XB900N
  • WF-1000X

“O fone de ouvido consegue fazer uma ‘remasterização’ do áudio [360] antes de reproduzir para o usuário. Quando a gente pega, por exemplo, uma música mais antiga, gravada em dois canais, por exemplo: eletronicamente, vamos dizer assim, ele está dividindo [aquele sinal] em diversos canais e reproduzindo para o usuário”.

Bom, se você quiser saber mais sobre o conceito por trás da tecnologia, não deixe de ler nossa entrevista com a Sony. Agora, vamos à prova de fogo: será que o 360 Reality Audio é tão imersivo a ponto de nos deixar de queixos caídos?

Fizemos uma série de testes usando diferentes plataformas, diferentes fones de ouvido, da Sony e de outras marcas, para chegarmos a uma conclusão sincerona do que é o 360 Reality Audio e se vale a pena para o amante de música assinar um serviço desses nas plataformas de streaming.

Nos nossos testes, fomos de TIDAL e Deezer, dois dos principais serviços que oferecem o recurso para nós, Brasileiros. Vale lembrar que a assinatura para quem quer ter o 360 Reality Audio é diferente e custa mais caro, e falaremos sobre os planos mais adiante neste review. Decidimos usar como padrão para os testes o recente lançamento in-ear truly wireless da Sony, o WF-1000XM3. Ei-lo:

WF-1000XM3, modelo in-ear da Sony com suporte ao 360 Reality Audio (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

Apesar de não contar com outros codecs além do AAC (Apple) e SBC (Android e Windows), o resultado foi muito bacana. E se você está se perguntando por que não testamos com o WH-1000XM3 logo de cara, a resposta é: calma, testamos com ele também e tudo está descrito logo abaixo, neste review.

Mapeando orelhas

Antes de começar, é necessário parear o fone com o aplicativo da marca, o Headphones Connect. Feito isso, ele vai pedir algumas fotos das suas orelhas para mapeá-las e entregar o melhor em termos de fidelidade. O processo todo leva menos de um minuto e assim que concluído, o aplicativo otimiza a plataforma que você quer usar para ouvir as músicas com o 360 Reality Audio. Aqui, dada a familiaridade que já tenho na plataforma, o app de streaming escolhido foi o TIDAL.

Feito isso, basta colocar de volta os fones, abrir o aplicativo e começar a experiência!

Nem todas as músicas soam 360

Antes de mais nada, é importantíssimo dizer que nem todas as músicas presentes em uma plataforma estão otimizadas para o 360 Reality Audio — e isso é fácil de entender, justamente devido à complexidade do processo de remasterização ou gravação das canções voltadas para a tecnologia. Relativamente, são poucas músicas no formato novo — mas isso vai aumentando gradativamente.

Ao que tudo indica, o pessoal da Sony está com muito trabalho pela frente e vai atualizando os álbuns e playlists em cada plataforma de acordo com a demanda ou o fluxo de trabalho. Assim, constantemente, novas músicas vão sendo adicionadas — e, no futuro, a ideia é que uma grande parte delas esteja disponível para o ouvinte, que hoje em dia tem cerca de mil canções disponíveis com essa qualidade aqui no Brasil.

Para a minha alegria, no TIDAL tem um bom arsenal de músicas que eu gosto, inclusive alguns dos meus álbuns preferidos, como o Headhunters, do Herbie Hancock, o Bitches Brew, do Miles Davis, o Time Out, do Dave Brubeck Quartet e coisas fora do jazz, como o Songs for Silverman, solo do Ben Folds, o Live It Up, do Isley Brothers e alguns do Billy Joel. Uma coisa que chama atenção é que tem muito motown (Earth, Wind & Fire, MFSB e o próprio The Isley Brothers), jazz e até um disco do pianista e arranjador brasileiro Eumir Deodato. É um prato cheio para jazzistas, apreciadores de músicas mais antigas e até audiófilos (sim!) que querem praticidade, mobilidade e quebrar o paradigma dos cabos e DACs ao ouvir um som com mais fidelidade no próprio celular.

Conteúdo 360 no TIDAL (Captura: Luciana Zaramela/Canaltech)

A galera que curte um som mais moderno vai encontrar algumas coisas legals no TIDAL, como Aerosmith, John Mayer, Incubus, Joe Satriani e Britney Spears. Mas é fato: a tecnologia é nova e ainda falta acrescentar muito álbum e música famosa por lá, inclusive. Faltam muitos artistas das antigas que sempre estiveram no topo das paradas, como Queen, Rolling Stones, Elton John, Guns N’ Roses, Metallica. Também faltam muitos modernos, como Beyoncé, Ed Sheeran, Justin Timberlake e, se eu for enumerar todos, vou furar o teclado e não vou chegar nem na metade.

Se você: a) gosta de jazz, motown e músicas mais antigas; b) é louco por som e precisa conhecer a novidade da Sony, vai se preparando para ouvir algo incrível aí.

E vale a pena mesmo?

Vale.

Além de ser suspeita para falar, pois encontrei muito do que escuto no meu dia-a-dia já pronto para o 360 Reality Audio e comecei esta análise usando um WF-1000XM3 (não é um fone hi-res, mas é um modelo muito próximo disso), a qualidade da masterização espacial é digna de nota. Vai agradar bastante os ouvidos mais exigentes, e abrir espaço para que os curiosos de plantão sintam como é entrar no vício irremediável da audiofilia. A cereja do bolo dos testes foi usar, após certo período com o modelo in-ear, um WH-1000XM3, o topo de linha da Sony com áudio hi-res. Sendo assim, vamos dedicar um parágrafo separado para as impressões com ele a cada canção usada como exemplo neste review.

Musicalidade fervendo

Em Take Five, do Dave Brubreck Quartet, a impressão que dá é de estarmos dentro do estúdio onde a captação ocorreu, com a banda inteira tocando e você ali no meio, assistindo. Uma gravação de 1959, bicho! E os engenheiros de áudio conseguiram torná-la tão atual e com fidelidade tão impressionante que você consegue identificar, no espaço virtual dos fones, a bateria posicionada no fundo, à esquerda; o piano à direita; o rabecão recuado, mais ao centro, porém mais perto do piano do que da bateria, e o sax que dita a linha melódica inteira da música, claro, no centro, à frente, “na sua cara”. Você consegue ouvir o ruído do sopro a cada nota (os WF são muito detalhados em agudos), sente a bateria crescer com uma ambiência incrível a partir dos 2:13 de música (com um reverb digno de palco pequeno), o roncar das cordas do rabecão durante o solo da bateria (quando o baixista nitidamente se empolga), que dá mais tensão à música e aparece à frente com um nível muito bom de detalhamento. A cadência do piano de Brubeck para que o saxofonista retorne com a frase clássica do tema mostra que os caras mandaram muito bem na engenharia e na dinâmica da trilha. Essa faixa tem apenas 4 instrumentos e um nível de detalhamento absurdo. Mesmo sendo antiga, porém, não é à toa que esta música é uma das preferidas dos audiófilos, devido à dinâmica e à naturalidade na sua sonoridade.

No WH-1000XM3

A diferença que existe em um fone projetado para o 360 Reality Audio é muito perceptível, e não é à toa que TODA propaganda que a Sony faz da tecnologia engloba fotos de artistas usando o equipamento com cara de deleite máximo. Produtores, cantores, instrumentistas, técnicos, todo mundo. A música que ouvi no WH é diferente da música que ouvi no WF, que por sua vez é diferente da que ouvi no Triple Driver (falarei dele a seguir). Para além do óbvio, a diferença está na singularidade da coisa, na ambiência ainda mais realista e na alta definição do equipamento. O reverb da bateria, muito perceptível durante o solo, quando Brubreck segura a base sincopada no piano, soa com uma espacialidade nada artificial e a impressão que dá é a de você estar sentado logo à frente do quarteto, com o baterista um pouco à sua frente e à esquerda. Em uma sala pequena, de teto alto, com acústica de pub, e com a vantagem do silêncio. A música gira. E quando o saxofone faz o famoso fraseado, você fecha os olhos e tenta procurar (imaginar) onde ele está. Bravíssimo!

No vídeo, o andamento está bem diferente da gravação original. É meramente ilustrativo.

 

Na faixa Constipated Duck, do guitarrista Jeff Beck, a primeira reação que tive foi tirar os fones do ouvido só para checar se o som não estava vindo dos meus monitores (de áudio), tamanha a fidelidade ao detalhamento espacial. Nela, temos cinco instrumentos: guitarra, baixo, bateria, percussão e teclados (clavinets). A música começa com Beck fazendo um acorde ritmado por 3 segundos, até chegar bateria, o baixo, a pausa e, enfim, a quebradeira. Apesar de poucos instrumentos disputando o espaço, temos uma riqueza incrível de notas nos arranjos e na composição como um todo. A guitarra tem um pan levemente deslocado para a esquerda, a bateria parece estar posicionada no fundo, com a condução à esquerda, pratos de ataque à direita, caixa e bumbo ao centro.

No WH-1000XM3

Ouvir detalhes em níveis tão realísticos é muito legal quando você pega uma trilha que você conhece de cabo a rabo e sabe cada ruído de captação que nem era para estar ali. Constipated Duck no WH-1000XM3 soou, para mim, como se eu estivesse dentro do estúdio durante uma session, no dia da gravação em single take. Se eu quiser brincar e me colocar no lugar do baixista, seria como se o amplificador de Jeff Beck estivesse logo aqui à minha esquerda, o batera à minha frente e o tecladista do meu lado, à minha direita. Eu, como baixista, poderia estar com um fone de retorno, já que por toda a trilha o contrabaixo soa onipresente, como se estivesse vindo de PAs. Todo efeito que foi masterizado panorâmico em stereo na música dá uma experiência muito viajante no 360 Reality Audio nessa faixa, ainda mais no WH-1000XM3.

 

Eu sou fã do Billy Joel. Tenho as músicas do cara decoradas, praticamente. E resolvi ouvir Piano Man… é notória a diferença entre a qualidade 360 e a HIFI — pelo menos no TIDAL. Como essa também é uma música que não sai dos meus fones, consegui perceber o quão rico é o nível de detalhamento da tecnologia. A faixa não tem a mesma dinâmica de Take Five, mas a espacialidade do negócio te faz sentir que está inserido virtualmente em um piano bar/café, bem como Joel narra na letra. O piano vem choroso no início, levemente deslocado para a esquerda, acompanhado da gaita, levemente deslocada para a direita. Depois o piano se centraliza e você ouve a bateria em stereo, enquanto Billy canta tranquilo — aparentemente próximo ao microfone. Quando a música cresce e entram o acordeon francês e o banjo, o vocal aumenta, mas se distancia do microfone. Dá para sentir a dinâmica inteira da música, como se você estivesse tomando o “tonic and gin” na frente do palco com o “piano man”. E o que é mais impressionante em toda a dinâmica da música é a forma como Billy Joel se aproxima do microfone e se distancia, como se estivesse conversando com o pessoal do bar que ele cita na música, virando a cabeça para os lados, ora recuando-se, ora aproximando-se, e descrevendo a galera. Aos 2:06, quando ele fala sobre o amigo e barman John, você ouve a ênfase que ele coloca nos versos “And he’s quick with a joke or to light up your smoke”, como se estivesse se aproximando do cara para realmente acender um cigarro enquanto toca piano, na sua frente. Parece viagem, mas é super imersivo, realmente. Toda vez que ele grita, você sente o vocal se distanciar do microfone para não estourar — tal qual os vocalistas fazem quando estão ao vivo.

No WH-1000XM3

O que é mais legal nesse fone que nos demais é aquele lance do “sob medida”, já que ele é o garoto propaganda da tecnologia espacial da Sony. Tudo isso que eu falei no parágrafo aí acima acontece com o WH-1000XM3, porém com um nível de detalhamento superior e com uma espacialidade ainda mais realista. Se eu já adoro me imaginar no cenário onde o cara descreve ou esteve enquanto gravou a música, nem preciso fazer esforço quando uso o equipamento. É difícil tentar explicar para alguém que não está ouvindo, mas se você puder dar o play nessa faixa e se imaginar dentro do bar, é isso que você vai ouvir quando estiver com o fone na cabeça. Não tem essa de “canais”. Parece que a captação foi feita em 360 graus, mesmo — apesar de ser algo completamente virtual.

 [FOTO DO ALBUM NO TIDAL]

Para fechar, vamos pegar o clássico Sexual Healing, de Marvin Gaye, de 1982. Já era uma época de bateria eletrônica, de um tipo de masterização e mixagem diferentes… e o resultado com o áudio 360 continua legal. Já dá para sentir a diferença no início: “Get up – get up – get up – get up” ecoando com pan totalmente jogado para a esquerda e “Wake up – wake up – wake up – wake up” ecoando na direita soam quase como uma gravação binaural. Guitarra na direita, teclado na esquerda, base de piano elétrico no centro e a bateria global, em stereo. Vocais trazidos adiante, com backing vocals que vão do centro para a esquerda. Baixo sintetizado ao fundo, bem no fundo. Nessa faixa, que é mais eletrônica — a contar os teclados, sintetizadores, efeitos e batidas —, é como se você estivesse na sala de monitoramento do engenheiro de áudio, ouvindo o som stereo mixado direto da mesa. Não dá a impressão de estar na frente de Marvin Gaye devido ao tipo de mixagem, mas o resultado é limpo e imersivo à sua maneira.

No WH-1000XM3

Permissão para gastar o mineirês, aqui: que trem bão! Nunca ficou tão claro ouvir que alguém (provavelmente da turma dos backing vocals) faz o “ba-ba-ba-ba-ba-baum” junto com o baixo aos 12 segundos da gravação, e isso me fez dar risada sozinha. É incrível o nível de detalhamento e realismo que esse brinquedo dá. Não tem agudos enchendo por estarem superenfatizados, nem graves te perturbando, nem médios muito… médios. É tudo bem equilibrado e todos — todos mesmo — os instrumentos, digitais e analógicos, são ouvidos perfeitamente. Nessa e nas outras trilhas que usamos como exemplo até agora. Mas, há alguns pontos que merecem ser levantados, os quais você verá a seguir.

 

Nem tudo são flores

Algumas músicas não ficam tão incríveis quando remixadas e remasterizadas na tecnologia 360 Reality Audio (como algumas do Ben Folds, que perdem ganho principalmente nas frequências mais graves), outras explodem sua cabeça (no bom sentido), como os discos do Earth Wind & Fire. Uma crítica, se me cabe fazer, é que nem todos os instrumentos parecem naturais todo o tempo, e isso é desafiador para uma remasterização que quer chegar ao conceito espacial.

Jesusland, do single de Ben Folds Songs for Silverman, mostra bem isso. A gravação não tem apelo que justifique o 360 Reality Audio sobre o Master, do TIDAL, por exemplo. Perde-se a emoção dos tímpanos do meio para o final da música, percussão colocada ali para dar tensão e impacto ao clima e à crítica social/religiosa que o compositor faz. A bateria estilo locomotiva, que para mim é um dos pontos mais altos da música, fica lá no fundinho, tímida, com o bumbo quase imperceptível, e a voz de Folds super média e alta. Perdem-se as frequências graves e agudas (brilho) na espacialidade e na pluralidade de instrumentos em determinadas — não em todas — gravações e, creio eu, a tecnologia ainda vai amadurecer a ponto de corrigir falhas do tipo à medida que o pessoal de engenharia de som for entendendo mais artistas e seus propósitos.

De modo geral, é uma tecnologia incrível, que, se usada com bons fones, entrega um resultado muito, mas muito bacana mesmo — principalmente para os amantes de música que ainda não experimentaram equipamentos de ponta, voltados a audiófilos.

WH-1000XM3 + TIDAL (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

Pode usar fones que não sejam da Sony?

Poder, pode.

Também fizemos os testes usando fones mais simples, como um Koss Porta Pro (on-ear, aberto), usado para retorno em palco, um Beats Studio3 (over-ear, fechado) e um 1More Triple Driver (in-ear, fechado, Hi-Res). Na verdade, qualquer fone pode ser usado, mas o resultado fica… estranho. Não tem o efeito gerado pelos fones da Sony e a impressão que dá é que (falando de modo geral nas músicas que testei) os engenheiros aplicaram muito ganho em graves e subgraves e encheeeram médios de reverb para dar a impressão de “ao vivo”. Na maioria das canções, agudos, até mesmo de pratos, e o efeito stereo se perderam, afinal de contas, não há um pan left-right com o qual o ouvinte se adeque, já que os canais foram “distrubuídos”. Perde-se em ambiência (por mais contradicente que pareça), em detalhamento, em presença, em impacto, em qualidade, em tudo.

Para usar como exemplo, escolhi um tema do Herbie Hancock que no TIDAL está disponível em todas as qualidades possíveis: Watermelon Man, um hard bop regravado para o álbum Headhunters, de 1973. Esse disco foi remasterizado digitalmente em 1997 e, o que aparentemente acontece, é que os engenheiros fazem uma remasterização da remasterização para gerar o áudio 360. Usando um fone hi-res de uma marca não-Sony, por exemplo, a música na qualidade Hi-Fi do TIDAL dá um banho no 360 Reality Audio. Em Hi-Fi, tive todas as frequências entregues muito redondinhas, consegui ouvir o ar passando pelas garrafas de cerveja que os caras usaram no início para simular uma tribo de pigmeus: os agudos estavam muito, mas muito bem posicionados, o contrabaixo veio limpo e potente, a bateria limpa e muito bem posicionada. Quando a guitarra entra, vem toda no fone da direita, com poucos efeitos. Herbie entra com os staccatos no antigo Rhodes para tomar frente ao palco e tanto o piano elétrico quanto o saxofone são entregues com uma excelente dose de presença. Percussão, jogada inteiramente para o fone da esquerda, também muito limpa e contrastando com o fraseado de sopro stereo. Existe toda uma dinâmica quando o piano troca fraseados com o saxofone, e essa dinâmica se perde totalmente no 360 Reality Audio quando você usa um fone de outra marca, por melhor que este fone seja.

 

Usando os mesmos fones (o chinês bom de serviço 1More Triple Driver, Hi-Res), agora no padrão 360, a música se perdeu no espaço. A introdução de flauta de madeira (a famosa pan flute) já perdeu resolução nas primeiras notas médio-agudas. O efeito stereo vai embora para dar lugar aos múltiplos canais que a Sony criou virtualmente. No WH-1000XM3, soa lindo! Aqui no 1More, soa como se:

  • a trilha de flautas tivesse sido deslocada para trás
  • o contrabaixo recebesse uma overdose de ênfase
  • a percussão fosse posicionada mais atrás
  • o piano elétrico e o saxofone perdessem ganho e ganhassem um quilo de reverb cada, sem qualquer efeito stereo
  • as guitarras também estivessem nessa mesma “leva”, com muito mais reverb do que na gravação hi-fi não há, de maneira alguma, nenhum pan 100% jogado para a direita ou para a esquerda. Afinal, a mix não é stereo; soa como se fosse captada ao vivo com um microfone cardioide/dinâmico sozinho no meio do estúdio.

A magia evapora, e não recomendamos, principalmente aos mais exigentes com música, que paguem mais caro pela tecnologia se não possuem um dos modelos listados pela Sony que a suportam aqui no Brasil.

Antes de mais nada, coloquei, ao final dos testes, os WH e WF-1000XM3 de volta nos ouvidos e ouvi a mesma trilha mais duas vezes: no Hi-Fi e no 360. Resumidamente:

O WF-1000XM3 não é um fone hi-res, mas com o DSEE HX ligado no app Headphones Connect, ajuda a ter um som mais próximo disso. Ele entrega um bom resultado no padrão Hi-Fi, com um bom nível de detalhes, frequências se respeitando e boa ambiência. O stereo vem com tudo, já que a gravação é feita em dois canais e chega com tudo em cima. E o WH-1000XM3, por ser over-ear e Hi-Res, entrega o melhor resultado possível, em Watermelon Man e no disco todo.

Com os fones da Sony em 360, Watermelon Man ganha a espacialidade desejada, e você se torna magicamente imerso em um ambiente nostálgico e intimista, como se estivesse no meio de um ritual de pigmeus. Os gritos, cada um vindo de um lugar no espaço virtual, tornam essa intro bem mais interessante. O contrabaixo vem redondo, cheio, mas sem overdose de graves. A bateria arrebenta em presença, chega chutando a porta. Os gritos continuam te surpreendendo cada hora de uma posição diferente. A percussão do pan da esquerda volta ao pan da esquerda, porém não totalmente lá, parece que um pouco deslocada mais para cima. Até que Hancock entra com o piano elétrico “contracenando” com o saxofone de Bennie Maupin. A dose cavalar de reverb é explicada, aqui: mais espacialidade. Pianos parecem vir do centro e da direita; sax parece vir da esquerda, mas do fundo. Contrabaixo está em todas, mas levemente posicionado à esquerda. Percussão não está completamente à esquerda, como no Hi-Fi, mas um pouco “jogada para trás” enquanto presente.

Mesa de 72 canais do The Cutting Room Recording Studios, NYC: agora imagina isso em 360 (Foto: Rebecca Wilson)

Resultado? Não funciona bem em fones não-Sony até o momento. Se este é o seu caso, nem precisa pagar mais caro no TIDAL, Deezer ou nugs.net para ter acesso à tecnologia.

Como mencionado antes, a coisa toda é otimizada para os fones de topo de linha da Sony, como o WH-1000XM3 e o WF-1000XM3 (segunda opção) e vai ter um resultado final mais interessante neles.

André Mendes, da Sony Brasil, disse em entrevista ao Canaltech que, embora a Sony esteja abrindo a tecnologia para ser ouvida onde o usuário quiser, os fones que a suportam conseguem “remasterizar o áudio eletronicamente” para entregar ao ouvinte níveis muito mais imersivos e virtualmente espaciais do que fones de outras marcas (ainda não adaptados para a tecnologia, vamos dizer assim) conseguem fazer. Um breve comparativo entre os modelos de teste comprovou isso.

Também deixei fluir o espírito curioso e testei a tecnologia usando monitores de áudio (KRK Rokit 5) em home studio e o resultado foi o mesmo som dos fones não-Sony. Ou seja, se você tem um sistema de áudio em uma sala em sua casa, não vai poder curtir som de streaming com bom nível de detalhamento e imersão por lá — a menos que a tecnologia amadureça e rompa a barreira dos fones, chegando também às caixas no futuro. Aliás, até no carro você pode tentar, mas fica bastante esquisito (pelo menos no sistema do meu veículo): você não tem a imersão proporcionada pelos fones e pelos monitores de áudio, dá para ouvir melhor algumas ênfases em vocais e mais ambiência, também. Só que no carro, quem dirige não fica numa posição das mais privilegiadas em relação ao áudio… então nem compensa. Fica um áudio pobre e definitivamente perde para a configuração normal de 128 kbps de programas de streaming. Não é um sistema feito para caixas de som, muito menos para sistemas automotivos.

Sistema de monitoramento aberto (Foto via Output.com)

Conclusão

Seria essa a evolução da música digital? Podemos dizer que sim. A tecnologia está tão otimizada para os fones da Sony que a empresa, inclusive, faz um rastreio das orelhas do usuário (via aplicativo) para entregar o melhor resultado possível do áudio espacial — com o máximo de pessoalidade, inclusive, já que a anatomia da orelha influencia no conjunto todo. Esse aplicativo é o Headphones Connect, proprietário da marca e que acompanha seus últimos lançamentos de fones sem fio. O app, aliás, permite ao usuário controlar uma série de parâmetros da música, que vão desde equalização e simulação de campo até nível de cancelamento de ruído (quando disponível). Ele “conversa” com o app de streaming e controla o fone usado pelo ouvinte.

Já para fones de outras marcas, simplesmente não faz sentido. Sem mais delongas, o que espero que aconteça a partir de agora na indústria de headphones é que o padrão 360 seja adotado por mais fabricantes, já que é uma tecnologia “aberta” e, aí sim, veremos, quem sabe, muito mais opções de fones de ouvido para que os usuários escolham a assinatura sonora preferida para curtir um áudio realista e imersivo. Quem sabe a tecnologia não chegue, também, aos sistemas de caixas de som? Isso só o tempo pode nos dizer.

Leia a matéria no Canaltech.

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