Irmã Dulce é homenageada na Lavagem de Itapuã; veja fotos

Uma festa cheia de manifestações culturais, que deixou de atrair pessoas de toda Salvador, mas hoje tem sua ‘resistência’ formada por turistas e, majoritariamente, pelos moradores. Essa é a Lavagem de Itapuã, que completou, em 2020, 115 anos de tradição. Fiéis aproveitaram o evento para lembrar também de Irmã Dulce, a Santa Dulce dos Pobres.

Foi um reencontro com as origens, já que a Lavagem de Itapuã surgiu no final do século XVIII como uma celebração dos pescadores da região. Os moradores locais, aliás, não enxergam a diminuição de público como algo negativo. É o caso da pedagoga Leonice Gomes, 61, que garante que a festa não vai acabar.

“O fato de ela estar se transformando em um evento quase que inteiramente ocupado por moradores daqui faz com que se crie uma energia ao seu redor. Ela deixa de ser apenas uma festa e se transforma em motivo de orgulho, resistência e empoderamento do bairro. E ver os itapuãzeiros marcando presença a cada ano me dá a certeza que isso aqui irá durar muito mais tempo”, conta ela, que desde criança faz parte da festa.

O amor de Nicinha, como Leonice é conhecida na região, pela Lavagem vem de família. Há 32 anos, a mãe dela, Niçu, iniciou um café da manhã solidário para receber as pessoas. Com a morte da matriarca, a pedagoga segue, como ela mesma diz, ‘mãetendo’ a tradição.

“Engraçado que antes eu era contra esse café da manhã, pois via minha mãe passar a madrugada inteira mexendo mingau e achava que ela era maluca. Hoje a louca sou eu (risos). Mas isso me dá muita alegria e aqui recebemos todo mundo, não importa renda, profissão, cor, religião… Todos podem comer este café da manhã e quantas vezes quiser”, conta ela, que oferece frutas, mingau, mungunzá e tapioca aos visitantes.

Razões e emoções
Cada um tem a sua teoria para justificar a queda do público. As razões apontadas vão desde a localização de Itapuã, distante do centro, à falta de investimento. Mas todos apontam uma causa em comum: a retirada dos trios elétricos, que aconteceu em 2009. Desde então, a Lavagem foi ‘abandonada’ pelo povo mais folião, que via a festa como um aperitivo do Carnaval – a lavagem é a última festa popular antes da folia de Momo.

“Só quem restou foi a resistência, e nós estamos aqui, e sempre estaremos, fiéis ao evento. Esta é a nossa festa, feita pelo povo para o povo. Mesmo sem grandes incentivos, estamos engajados e organizando a Lavagem. Isso é África. Isso é o povo negro”, acredita Turuca Bastos, que há 27 anos não perde uma edição.

Apesar disso, quem vê a Lavagem como fonte de renda lamenta a atual situação da festa. Uma das muitas ambulantes que disputavam os raros fregueses, Rosângela Freitas, colocou seu isopor na frente da Igreja da Nossa Senhora da Conceição de Itapuã às 7h da manhã e só foi realizar a primeira venda já às 11h30 – água para a reportagem.

“É muito desanimador trabalhar assim, não tem quase movimento nenhum. Parece até que não tem nenhuma festa rolando, como se fosse um dia comum. Tem até mais vendedor que folião. Mas, apesar de tudo isso, eu não penso em deixar de vir trabalhar aqui não, porque eu gosto de festa e querendo ou não consigo curtir um pouco”, afirma.

Já quem vem de fora, como a paulista Rosana Neves, 43, também estranha a falta de movimento. “Eu até perguntei ao policial se era aqui mesmo a Lavagem. Eu estive em Iemanjá e estava muito cheio, daí imaginei que aqui seria assim também. Estou muito surpresa”, aponta.

Festa de Dulce?
Apesar de carregar o nome do bairro, a Lavagem tem sua padroeira, a Nossa Senhora da Conceição de Itapuã para os católicos e Iemanjá para os candomblecistas. Mas nesta edição, as entidades tiveram de dividir as atenções com uma nova santa, Dulce dos Pobres, que recebeu diversas homenagens, como a do administrador Adilson Guedes, 52, que levou uma imagem da baiana para o cortejo.

“Se tem a festa de Iemanjá e do Senhor do Bonfim, esta pode ser a de Dulce, por que não? É a primeira santa baiana e devemos homenageá-la junto com nossa senhora para fortalecer a fé. Se é uma procissão de esperança, santa Dulce deve estar presente”, diz ele, que levou a imagem para a Lavagem pela primeira vez.

Imagem carregada por Adilson (Foto: Arisson Marinho / CORREIO)

Já Turuca Bastos resolveu usar uma estratégia diferente para homenagear a santa. Ao invés de carregar uma imagem com as mãos, ele colocou retratos da baiana em seu carro – transformando-o em um “Dulce móvel”.

“Eu, assim como todos os baianos, devemos muito a Irmã Dulce. Fui uma das muitas crianças dela. Graças a esta santa eu estudei, me alimentei e me eduquei. O mínimo que posso fazer após tanta ajuda é agradecer e homenageá-la”, afirma.

*Com orientação do chefe de reportagem Jorge Gauthier

A cobertura das Festas Populares do CORREIO tem patrocínio da Claro, Hapvida, Salvador Bahia Airports  e Sotero Ambiental além de apoio institucional da Prefeitura de Salvador.

 

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