De mulher para mulher: elas fazem e ensinam a fazer reparos domésticos

A compra de um secador e a inexistência de uma tomada que suportasse o aparelho em casa fez com que a jornalista Niassa Jamena, 30, pusesse em prática um desejo que já vinha alimentado há pelo menos dois anos: aprender a trocar as tomadas de alguns cômodos por conta própria.

Para dar conta do desafio, procurou alguns vídeos no YouTube e pediu dicas a conhecidos. Pela primeira vez na vida, não pensou em chamar, muito menos pagar, alguém para “resolver o pepino”. “Para mulher que mora sozinha, contratar pessoas que fazem esse tipo de serviço vira uma dor de cabeça. Geralmente, são homens. Então, tenho que pedir referências e mesmo assim ter todo um preparo para me sentir segura. Sempre que vem um prestador de serviço aqui em casa é porta e janelas abertas, celular na mão… Além disso, tenho que pensar na roupa que eu vou vestir, porque roupa da mulher é sempre uma desculpa na hora da violência”, detalha.

Além da (in)segurança, outros dois motivos pesaram na decisão: o preço cobrado e a necessidade de resolver as coisas em seu próprio tempo. “Muitas vezes o reparo, apesar de rápido e pequeno, é muito caro. Você paga porque não sabe fazer, mas quando se dispõe a aprender vê que não é difícil. Além disso, tenho uma rotina corrida, gosto de fazer as coisas no meu tempo, e ter autonomia para resolver o problema assim que ele acontece”, sintetiza.

A jornalista Niassa Jamena, 30, pergunta a amigos e assiste a tutoriais do YouTube sobre como fazer instalações elétricas em casa (Foto: Divulgação)

As motivações de Niassa são as mais recorrentes entre as mulheres que decidem se lançar no desafio de aprender a fazer a manutenção residencial por conta própria. Dentre as habilidades mais requisitadas, trocar resistência de chuveiro, reparar pequenos vazamentos, instalar prateleiras e suportes de eletrodomésticos, montar móveis, pintar paredes e colocar pisos e azulejos. “Quando pensei em contratar alguém foi simplesmente pelo medo de fazer errado, principalmente quando era algo relacionado a eletricidade, que é uma coisa de fato perigosa”, emenda.

Tudo isso, no entanto, só passou a ser uma demanda quando ela deixou de morar com o pai. “A gente não faz ideia do que precisa, e muitas vezes acha que não vai conseguir porque não somos ensinadas”, avalia.

Forcinha
Foi no andar de cima do prédio em que mora, que Niassa achou o empurrãozinho final: uma vizinha que faz absolutamente tudo no próprio apartamento. “O que mais me faz pensar que eu dou conta é ver outras mulheres fazendo”, conclui. Questionada se faria um curso, ela nem titubeia. “Sem dúvida! Se pudesse fazer um curso geralzão de coisas básicas para casa ia ser muito legal“, diz. 

A oportunidade chegou. A partir de hoje, Salvador ganha um espaço de formação exclusivo para mulheres com cursos de mecânica, marcenaria, manutenção residencial, jardinagem e pintura – em breve, até aulas de mecânica de carros serão ofertadas. 

As sócias May Barros e Shel Lisboa, fundadoras do Entre Minas Serviços, que nesta segunda (13) inaugura o MinasLAB, na Saúde (Foto: Divulgação)

Localizado no bairro da Saúde, no Centro, o MinasLAB é uma realização do Entre Minas Serviços, projeto baiano que, em quatro anos, já formou centenas de mulheres pelo Brasil. “Desde a época de faculdade, com 23 anos, resolvia tudo em casa. Morava em república estudantil e ninguém sabia fazer nada. Minhas amigas viam e diziam que eu poderia fazer uns bicos com aquilo, mas nunca levei a sério”, recorda May Barros, 30, hoje uma das sócias e fundadoras do Entre Minas ao lado de Shel Lisbôa. 

May é museóloga e Shel engenheira sanitarista e ambiental. Além das formações distintas, as duas começaram a fazer de um tudo em casa por motivações diferentes. A primeira, por incentivo do pai marceneiro, que sempre a deixou por perto observando. A segunda, filha de mãe solo, sempre viu a mãe fazer tudo que podia. “Ela pintou a casa quando eu estava na barriga dela, então é algo que vem de lá”, explica.

Com a abertura do espaço de formação, as oficinas terão periodicidade e um espectro maior de especialidades. O MinasLAB também terá planos de locação para as mulheres formadas pela Entre Minas, com disposição de todas as ferramentas, maquinários e equipamentos necessários e auxílio das tutoras que ministraram as oficinas. Um passo importante para aquelas que pensam em se profissionalizar.

Ferramentas do MinasLAB (Foto: Reprodução/ Instagram)

“Nossa ideia é ampliar esse acesso porque o mercado é muito machista. Ainda são homens que fazem esse tipo de coisa, então a ideia é popularizar o acesso e a informação para as mulheres. Nossos cursos têm preços populares inclusive por isso”, afirmam.

O trabalho tem rendido frutos. Recentemente, as duas ouviram de uma aluna da oficina de Manutenção Residencial que ia “trocar o shopping pela Ferreira Costa”. É que depois das aulas, ela passou a acreditar que os maquinários e ferramentas expostos em lojas do tipo home center também poderiam ser escolhidos e comprados por ela. “É uma sessão que nós precisamos ocupar, já que os olhos ainda são de estranhamento para nós mulheres”, dizem. 

No mercado, a coisa também tem mudado. Em agosto, a Coelba lançou um Curso de Eletricistas para Mulheres. Em seu quadro de funcionários, a empresa já conta com eletricistas mulheres há um tempo; algumas delas formadas nas turmas mistas, que devem abrir inscrições em breve.

Machismo e descrédito no ambiente de trabalho
Mesmo sendo cada vez mais numerosas, as mulheres que se dispõem a prestar serviço de manutenção doméstica ainda são alvo de descrédito por colegas de trabalho e também por clientes.Não é raro ver relatos de pessoas que sentem receio em contratá-las por medo de elas não darem conta do recado.

Para a psicóloga Fátima Mira, há uma dupla orientação para profissionais que têm de lidar com o problema. “A primeira é busca do fortalecimento pessoal para lidar com o contexto machista da profissão, inclusive com informação sobre seus direitos e o que cabe ou não a sua função, atribuições para evitar situações onde esteja  vulnerável a assédios e afins. E, também, pensar numa orientação de carreira, observando o crescimento da demanda de muitas mulheres que optam por contratar outras para determinadas atividades por se sentirem mais seguras”, comenta a psicóloga. 

De acordo com a profissional, iniciativas de trocas entre mulheres favorecem um lugar de identificação, de acolhimento e, portanto, de reconhecimento de habilidades que antes era dito que não poderíamos desenvolver por ser mulher.

“E aí está a potência: ver na outra, igual a mim, a possibilidade de ser e fazer. Se cria uma rede de apoio, incentivo e encorajamento e, essa relação de igual para igual, de troca, nos permite ser o que desejamos ser, a vislumbrar novas possibilidade de atuar no mundo”, avalia.

  • Só Para Mulheres | Cursos no MinasLAB 

18 e 19 de janeiro (uma turma por dia)  Oficina de Marcenaria Móvel Para Seu Pet – Ensina a fazer móveis em madeira para seu animal de estimação, como caminhas e escadas.

7 e 8 de fevereiro Oficina de Manutenção Residencial – Ensina a fazer reparos elétricos, instalação de tomadas e resistências, resolver problemas com infiltração

Endereço Beco da Agonia, 55 – Saúde, Salvador-BA

Inscrições e informações  pelo (71) 9 9233-1928 (Whatsapp)
 

Botão Voltar ao topo
Fechar

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios