Ba-Vi: chumbo trocado, barril dobrado

Há pouco, quando o mundo ainda não tinha se acabado em Carnaval e coronavirus, o Ba-Vizão da Nova Fonte rendeu a história do time que mereceu, mas não venceu. O adversário, abusando da bola parada, criou vantagem e segurou o triunfo (amado?), pondo fim ao pequeno tabu.

Para três semanas depois estava marcada a revanche, por assim dizer. Em vez dos tais do time principal, os aspirantes por espaço e glória se encontrariam pelo Campeonato Baiano. Um Ba-Vizinho, feito possível por um calendário que aperta datas e mentes na mesma proporção e cada um que lute. Apois, nada como um dia após o outro para aplacar a dor.

No Barradão, onde outro pequeno tabu similar resiste, os de baixo protagonizaram uma partida cheia de opções, movimentada, com direito a uma recorrente arbitragem tenebrosa, pênalti não marcado, um sol de rachar, boas defesas de goleiros, más defesas como sistema e um repeteco do roteiro de há duas semanas, mas com sinal invertido.

Mesmo superior, o Vitória caiu para o Bahia em casa, que abusou das bolas paradas e fez reviver a mística dos gols de último suspiro, esta entidade que parece ter pacto com o tricolor.

E se pau que dá em Chico, dá em Francisco e o mundo dá voltas, o ditado de que chumbo trocado não dói é falácia, porque devolver na mesma moeda é bom demais para que se recupere um teco da autoestima abalada. No que se revise o falatório e até se meta rima: chumbo trocado, barril dobrado.

Para além do “te pego na saída” e da retomada dos gols na extrema unção do tempo regulamentar – para o que, aparentemente, o Ceará não apenas tem antídoto, mas veneno reversor -, a narrativa do segundo Ba-Vi do ano serviu para mostrar que, apesar dos dirigentes calendaristas que se dispõem a desprezar o estadual, Ba-Vi não aceita diminutivos, senão apenas superlativos. 

Não se cria, portanto, um Ba-Vizinho, porque, no campo de jogo, amparados na história e na glória do clássico que criou o futebol, os vestidos de mantos sacros se superam ao limite de suas forças e fazem festa para a memória.

Ateste-se, incauto: Ba-Vi só se aceita aumentativos exaltantes, do tamanho da megalomania baiana.

Megalomania esta que aos poucos vai enterrando traumas passados e faz reviver o clima de escárnio que faz do clássico da origem da vida tão esplendoroso.

Chute-se, portanto, o Ba-Vizinho para os cantinhos da disciplina, lembrando de Mario Mukeka, que cancionou a verdade do chumbo trocado: o chifre não importa, o que eu não gosto é da chacota.

Substitua-se pelo Ba-Vi que é gigante em si e, na beleza do barril dobrado, carimbe-se que o efeito da gastação do clássico está mais vivo do que nunca. Que tuítes bem humorados de clube e clube procriem num clima de humor carregado de chacota de quem é o dono da vez (amado!), porque no vai-e-vem do futebol é melhor aproveitar quando pode. Que povo entre e se instale na comédia: “Moço, eu nem sei o que está acontecendo, eu só vim aqui pela resenha”.

Então, que no próximo clássico, parafraseiem outra melodia, catapultando o pequeno tabu a níveis de trocação debochada: “vou pro Barradão pra desespero do freguês”.

Gabriel Galo é escritor.

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