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Fotógrafo baiano vende fotos do Sertão em troca de cesta básica para famílias carentes

No interior da Bahia, Noilton Pereira registra o cotidiano de famílias carentes e através da Internet consegue vender as imagens. Todo retorno financeiro é revertido para as pessoas fotografadas

O Sopro do Candeeiro. (Foto Noilton/divulgação)

Casebres de taipa, candeeiros acesos com diesel, animais mortos, apego à fé e rotina árdua, mas com esperança. Esses são os principais temas registrados nas fotografias de Noilton Pereira, 45, um radialista e fotógrafo que dedica boa parte de seu tempo para retratar o cotidiano do sertanejo. Após receberam um devido tratamento, as imagens são vendidas na Internet e todo o dinheiro arrecadado é revertido em causas sociais para pelo menos dez famílias retratadas.

As imagens apresentam fortes expressões humanas, em cores e contrastes de rara beleza plástica, fortalecidas pelo angulo original na condução do obturador.

Ao pé do fogão (Foto Noilton/divulgação).
As fotografias de Noilton Pereira retratam o cotidiano dos sertanejos no interior do município de Ruy Barbosa, onde faz radialismo e toca a vida com a família. Ele concedeu uma entrevista ao site leiajá.com.br, que transcrevemos na integra. Confira a entrevista completa:

1) Sempre quis ser fotógrafo? Explica um pouco sua relação com a fotografia.

Antes da fotografia eu tinha uma banda de rock, era compositor, tocava bateria e também cantava. A fotografia entrou na minha vida há dois anos e eu não tinha interesse em ser um fotógrafo conhecido. Fazia trabalhos voluntários para ajudar pessoas carentes da minha terra, Ruy Barbosa, e sempre me interessei pelas causas sociais. Aos poucos, comecei registrando o meu cotidiano com um celular e muitas pessoas perceberam que eu tinha uma sensibilidade para a fotografia. Todo mundo começou a me incentivar a fotografar e eu fui me interessando pela área cada vez mais.  Eu digo que era uma necessidade que tinha de registrar os momentos e conseguir congelar tudo em uma imagem. Também sempre tive vontade de registrar os momentos especiais na vida dessas pessoas carentes.

Badameiro de papelão. (Foto Noilton/divulgação)

2) Suas imagens registram uma mesma paisagem. É onde você sempre viveu? Por que decidiu registrar esses momentos?

Eu sou nascido e criado em Ruy Barbosa e o meu trabalho é contar as histórias do povo do Sertão com a fotografia. Sou um artista e historiador. Como eu sempre morei aqui, o meu papel de parede é essa paisagem que retrato nas minhas imagens. O mandacaru, a casa de farinha, o homem do campo, os animais como o jegue e todo o universo sertanejo. Eu sempre digo que se algum fotógrafo vier passar um tempo no Sertão, ele não vai conseguir registrar as imagens que faço porque eu sou nativo e sei como tudo funciona aqui. Conheço cada personagem e isso aumenta minha relação de confiança mútua. Acho que a grande mídia é muito distante de quem é artista no interior. A gente não tem apoio e quase não aparece ninguém para contribuir.

3) A câmera é um objeto que assusta, muitas vezes. Como lida com isso ao retratar pessoas humildes que podem ficar tímidas e rejeitar a fotografia?

Fé que ilumina montanhas. (Foto Noilton/divulgação)

O fato de já ser presente na vida dessas pessoas me deu uma maior segurança e uma relação mais íntima com eles. Eu também ajudo todos de alguma forma. Cada foto que registro, se for vendida, o valor é repassado para eles em saúde, qualidade de vida, bens físicos e educação. Então, como eles sabem disso, também me ajudam a contar um pouco de sua história com a fotografia. Eu explico que, através das redes sociais, pessoas do Brasil e do mundo inteiro podem ter acesso ao meu material e vir ajudá-los. Costumo dizer que coloco uma moldura na tragédia que acontece todos os dias no Sertão.

4) Como se deu a evolução da tua carreira? Você comprou uma câmera e começou ou fez cursos?

Eterna leitora. (Foto Noilton/divulgação)

Eu comecei tirando fotos com um celular e depois fiz registros com câmeras mais simples que ganhei de presente das pessoas que acompanhavam o meu trabalho. Nunca comprei uma máquina fotográfica porque eu não ganho dinheiro com a fotografia, sabe? Não tenho como fazer investimentos nessa área, já que toda a minha renda das fotos eu repasso para as dez famílias carentes que me comprometi a ajudar.

5) Como é sua rotina atualmente, você fotografa sempre? São fotos mais pousadas ou mais espontâneas? Como monta as fotos?

As fotografias são pousadas e espontâneas. Eu utilizo os dois métodos porque conto histórias e preciso utilizar das mais variadas formas possíveis para obter o registro que desejo. Procuro retratar o cotidiano, então muitas vezes acompanho os meus personagens e vez ou outra, peço para ele que faça uma pose. Mas, a maioria das fotos são de momentos espontâneos.

6) Como as fotos ajudam a população registrada? Você retorna com itens que eles necessitam e não apenas os fotografa e vai embora. Como é isso?

Sorriso azul. (Foto Noilton/divulgação)

A minha fotografia hoje é a fonte de renda dessas dez famílias. Muitos deles têm dificuldade em conseguir recursos do governo federal para se manter e esses programas sociais às vezes deixam na mão e tento ensiná-los a conseguir através de outros meio o sustento. Com a notoriedade das fotos, além do dinheiro da venda, muitas pessoas se sensibilizam com os pedidos, que vão desde um sofá a um brinquedo. Aí também peço doações que possam ajudá-los a trabalhar, como uma máquina de cortar cabelo ou um carro de mão para eles carregarem alguma coisa e ganhar um trocado. Eu também busquei apadrinhar as dez famílias que vivem no anonimato no meio do Sertão. Eles não têm acesso a rádio, a televisão e não tem proximidade com quase nada. Para cada criança carente dessas famílias, eu busquei encontrar um padrinho no país. Essa pessoa fica responsável de enviar uma quantia de dinheiro para aquela família. Eu faço isso para que eles tenham um pouco mais de conforto, é uma pobreza extrema.

O fotografo Noilton tem se dedicado à causa social.

Mas, eu não crio falsas expectativas nessas famílias. Eles sabem que por eu não ter uma representação legal, não tenho um compromisso fiel com eles. Eu vou em busca da ajuda e se chegar, eles recebem. Mas se não, não podem me cobrar porque não tenho culpa. Sou eu, Deus, uma bis e minha câmera.

7) Você já ganhou prêmios e conquistou um certo conhecimento, principalmente na Internet. Tem algum sonho?

Entre a foice e o martelo. (Foto Noilton/divulgação)

Tenho força nas redes sociais e isso foi um passo importante para o reconhecimento do meu trabalho. Já fui premiado em alguns concursos nacionais e internacionais. Já ganhei viagens e câmeras e só fico com isso. Tudo que envolve algum retorno financeiro eu retorno para as famílias. Através das redes sociais, conquisto todos os dias muitas pessoas. Tenho uma rede forte e no Instagram já tenho quase 62 mil seguidores acompanhando meu registros. Meu sonho é um dia essas pessoas terem uma casa própria e boas condições de vida. Eu digo que meu sonho é continuar realizando o sonho deles.

8) E para o Natal há alguma campanha?

No fim do ano eu decidi vender ainda mais imagens para tentar trazer mais alegria para essas famílias. A gente sabe que o Natal é um momento importante para todo mundo. Recentemente consegui um sofá para uma família que não tinha onde sentar. São alternativas criadas por mim para garantir que essas pessoas não vão ficar sem um carinho.

9) Nesse trajeto como fotógrafo, qual a importância da fotografia para você?

A menina de Cosme e Damião. (Foto Noilton/divulgação)

A fotografia tem uma importância tão grande em minha vida e só pude ter a dimensão disso quando vi uma fala de Sebastião Salgado em um programa de televisão. A fotografia ocupa um espaço gigante na minha vida, eu não conseguiria mais viver sem fotografar, é algo fascinante que mudou minha rotina e a de muita gente ao meu redor. Eu sou referência hoje e espero crescer ainda mais. Gostaria que muitas pessoas me copiassem, pela primeira vez. Meu desejo é que as pessoas saiam da sua zona de conforto e passe a observar um pouco mais ao seu redor.

Família beneficiada com a doação de uma cesta básica, das fotos de Noilton.

Para conhecer um pouco mais sobre o trabalho de Noilton Pereira, visualizar o adquirir alguma fotografia, o contato pode ser feito pelo Facebook oficial do fotógrafo ou pelo telefone (75) 999785506.

Salvador do Paraguaçu

Salvador do Paraguaçu ou Salvador Roger Pereira de Souza, é jornalista editor fundador do periódico O Paraguaçu em circulação desde 1976. Solteiro (divorciado) é um ambientalista dedicado em defesa do Rio Paraguaçu. Para tanto criou a ONG Fundação Paraguaçu, com a qual promove o Projeto Cariangó, que tem por meta o plantio de 1.0 milhão de árvores nativas na região do médio Paraguaçu e Chapada Diamantina. O projeto conta com a participação de empreendedores, muitos voluntários e recebe apoio da Fundação Interamericana - IAF, que firmou o convênio BR-898 com a doação de U$49.0 mil dólares, em apoio a etapa inicial da meta de 1.0 milhão de árvores a serem plantadas em cinco anos. O ano inicial é 2016.

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