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Cortado duas vezes, o Rio Utinga sofre grave ameaça de morte

O Rio Utinga percorre áreas com suas margens comprometidas pelo desmatamento.
O Rio Utinga percorre áreas com suas margens comprometidas pelo desmatamento.

O pequeno Rio Utinga, reconhecido pela importância da sua perenidade, sendo um dos principais tributários do Rio Paraguaçu, está passando por grave crise hídrica, diante da captação desordenada de suas águas por centenas de bombas de sucção que, diariamente, drenam do rio para a irrigação da fruticultura que cresce a cada dia em suas margens. Na semana passada o Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos – INEMA em articulação com as prefeituras dos municípios de Wagner e Utinga, firmaram um pacto com os produtores suspendendo as captações de água durante três dias, da sexta-feira 20 até a segunda-feira 23, quando o Inema ficou de medir a vasão que chega ao povoado de São José, ao cruzar a BR-242. Conforme o prefeito Elter Bastos (Wagner), 80% dos irrigantes que integram a Associação dos Produtores do Vale do Rio Utinga e do Grupo Banana do Vale, participaram desse compromisso.

O prefeito Elter Bastos defende o uso sustentável do Rio Utinga, para não comprometer o futuro.
O prefeito Elter Bastos defende o uso sustentável do Rio Utinga, para não comprometer o futuro.

O prefeito informou que essa tomada de decisão ocorreu na quarta-feira, 18/01, quando a maioria dos produtores estiveram no encontro que se deu no Salão Paroquial de Wagner, com as presenças de representantes do INEMA, os prefeitos Elter e Joyuson Vieira (Utinga), com representações de Lençóis e Lajedinho.

Maior controle da irrigação

Recentemente, técnicos do Inema, e os movimentos sociais da região da Chapada Diamantina, estiveram reunidos na sede da Secretaria Estadual de meio Ambiente – SEMA, onde esteve o prefeito Elter Bastos e o promotor público André Meireles, representando MP da Bahia.

A irrigação de grandes plantações de bananeiras e outras frutíferas, vem comprometendo a vasão do rio.
A irrigação de grandes plantações de bananeiras e outras frutíferas, vem comprometendo a vasão do rio.

Deste encontro ficou firmado os seguintes procedimentos para controle da irrigação: Realização de estudo técnico para regular a vazão do Rio Utinga; Liberação para irrigação de no máximo 5 hectares e suspensão de outorga para áreas acima dessa delimitação; Corte de 100% das outorgas para irrigação nas plantações de capim; Identificação em conjunto com o Ministério Público de situações as quais serão necessárias ações de ordem criminal; Realização de reunião com a Secretária de Desenvolvimento Rural para realização de estudo de sequeiro e assistência técnica aos pequenos produtores da região; Maior celeridade no processo de cadastro de usuários de água; Criação de Grupo de Trabalho para acompanhamento e avaliação de impacto das medidas adotadas; Estudo para recuperação de bacia hidrográfica e mata ciliar.

Espera-se que o sociólogo José Geraldo dos Reis Santos, empossado pelo governador Rui Costa, na última segunda-feira (23), como secretário do Meio Ambiente, resgate as potencialidades ambientais do Rio Utinga.

Situação de risco

Trecho do Rio Utinga sofreu corte por duas vezes, interrompendo a chegada da água no povoado de São José.
Trecho do Rio Utinga sofreu corte por duas vezes, interrompendo a chegada da água no povoado de São José.

Vários fatores vem agravando os riscos de exaustão sobre o Rio Utinga.  Dentre eles podemos enumerar a construção de uma estrada vicinal, pelo governo do estado, sobre sua nascente, nas proximidades do povoado de Cabeceira do Rio, influindo na ocupação humana predatória daquela área sensível do rio; Sobre a nascente o estado edificou também a barragem de Cabeceira do Rio; Com a expansão do agronegócio, as margens do rio passaram a ser ocupadas desordenadamente, por grandes projetos de irrigação para a abundante fruticultura de hoje, anteriormente utilizada para a irrigação do tomate cujos agrotóxicos chegou a compromete a qualidade da águas por muitos anos.

A Irrigação intensa e descontrolada, agravada pela ausência da outorga e controles de captação, já levou o rio ao extremo, ao interromper seu curso d’água a 30 km da nascente, nos anos de 2015 e 2-0’16.

Potencial hidrológico ameaçado

Trecho do afluente Rio Bonito, que também sofre grave crise hídrica.
Trecho do afluente Rio Bonito, que também sofre grave crise hídrica.

Situado em uma bacia de forte impacto ambiental o rio Utinga concentra características hidrológicas originais e muito sensíveis, conforme atestam os estudos desenvolvidos pela extinta Companhia de Desenvolvimento do Vale do Paraguaçu – DESENVALE.

A bacia hidrográfica do Rio Utinga abrange uma área de aproximadamente 3.000km², situada entre os meridianos 40°54’ e 40°27’, a oeste de Greewich e os paralelos de 11º43’ e 12°35’. Esta bacia encravada na porção central do Estado da Bahia, constitui um subsistema hidrográfico mantenedor da vasão do Rio Paraguaçu.

O Rio Utinga nasce próximo à localidade de Cabeceira do Rio, na porção nordeste da área, de onde parte em sentido NNE-SSO, sofrendo ligeira inflexão para oeste após cruzar a BR-242, entre Tanquinho e Lençóis, indo desaguar no Rio Santo Antônio (principal afluente na margem esquerda do Rio Paraguaçu) a cerca de 5km de Lençóis, após cumprir um percurso de mais de 120km, com uma ruptura de declive entre a nascente e a foz de cerca de 540m.

Neste estudo, merece atenção especial o que os técnicos observaram há 20 anos atrás, que o Rio Utinga guarda certa assimetria com seus afluentes, não só com relação à densidade dos seus tributários, como também em relação ao seu volume de contribuição. Pela margem direita recebe afluentes perenes, como os rios Bonito das Lajes, Tijuca, da Lajinha e Riachão, mantidos pela excelentes retribuição subterrânea dos metassedimentos da Chapada Diamantina. Contando ainda com os bons totais pluviométricos (médias anuais de 900mm a 1.200mm).

Cabe então maiores cuidados e uma exploração sustentável dos potenciais hídricos desta sub bacia, preservando-se todas as nascentes, com uso controlado da captação da água, vez que, na margem esquerda insistem os tributários perenes, além das mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global, que reduziu o níveis pluviométricos de toda a região.

Salvador do Paraguaçu

Salvador do Paraguaçu ou Salvador Roger Pereira de Souza, é jornalista editor fundador do periódico O Paraguaçu em circulação desde 1976. Solteiro (divorciado) é um ambientalista dedicado em defesa do Rio Paraguaçu. Para tanto criou a ONG Fundação Paraguaçu, com a qual promove o Projeto Cariangó, que tem por meta o plantio de 1.0 milhão de árvores nativas na região do médio Paraguaçu e Chapada Diamantina. O projeto conta com a participação de empreendedores, muitos voluntários e recebe apoio da Fundação Interamericana - IAF, que firmou o convênio BR-898 com a doação de U$49.0 mil dólares, em apoio a etapa inicial da meta de 1.0 milhão de árvores a serem plantadas em cinco anos. O ano inicial é 2016.

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